101 Peregrinos: o evento que você não pode perder

Seguindo os passos dos antigos peregrinos, o Caminho de Santiago de inverno corre ‘101 Peregrinos’, já é um clássico entre as marchas emblemáticas deste país, por sua beleza, por matizes históricos de seu percurso, a sua impecável organização e também por sua extraordinária dureza.

Você pode misturar a caminhantes, corredores, duatletas e mountain bikers em um único circuito de mais de 100 km? Os caras da ‘101 Peregrinos’ tornam isso possível e não só o conseguem, mas que, além disso, você vai receber o mimo, bom e fazer um mestrado exemplar. Quisemos ver a partir de dentro por que se fala tão bem de este singular evento e lá estivemos, suando a gota gorda, compartilhando pedaladas com outros 3.500 entusiastas… e gostando muito de um caminho difícil de igualar! O Caminho de Santiago de inverno era o curso que realizavam os peregrinos nas épocas de mais frio para evitar o Alto de O’Cebreiro, muitas vezes coberto de neve. Passa por zonas mais baixas do que o mais popular caminho francês para Santiago, para deixar as temperaturas mais cruas.

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Segue a fórmula dos 101 km de Ronda já que é uma prova derivada daquela, com quatro modalidades: corredores ou marchadores, mountain bike, duatlón e maratona, sendo o objetivo o mesmo, cobrir 101 km em um período máximo de 24 horas, seguindo um itinerário circular.

Perguntando em plena abate chaves sucesso desta marcha, cada participante tinha a sua própria versão: “me motiva muito para estar em forma, eu sei que para superar essas costas, eu tenho que estar bem nessas datas e a cada domingo que vou para a montanha com o meu grupo de amigos, já tenho a cabeça em Ponferrada”, “É o terceiro ano que faço, eu venho de Ferrol e aqui deixamos um grupo muito grande, é um encontro anual de meu calendário”, “Eu acabar eu tenho bastante, faço rotas de 40 a 60 km e a 101 é um desafio que me estimula muito… espero que não me dê nenhum tração nem me falhe a bicicleta e nos deparamos na meta”, “A mim me foram ‘enganados’ estes (apontando para os outros dois com o mesmo maillot “amarelo pintinho”), está me custando muito, mas no final até se eu vou ter que agradecer e tudo… ha, ha, ha…”, “Eu já estive duas vezes, repito, porque tentam fenomenal para os corredores, cuidam de cada detalhe, o percurso é bonito e os postos de refresco… se quase até confinamentos em vez de perder peso!”

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A verdade é que nós temos uma idéia de organizar eventos, mas quando vemos ‘o que junto’ com ele, nós vamos dar as mãos à cabeça. Vá ‘pedaço’ de montagem têm que fazer para poder encaixar as milhares de peças que compõem este complicadísmo quebra-cabeça! O dispositivo de segurança é impressionante, são 24 horas em que o curso estiver ativo, os caminhantes e por algum corredor e ciclista sem noção que aponta sem ter treinado o suficiente, com voluntários nas áreas de conflito de dia e de noite, Guarda Civil, motos e 4×4 em viagem, Protecção Civil… todos atentos a qualquer eventualidade que possa surgir. A edição 2014 foi impecável nesse nível, não houve grandes problemas e os problemas que inevitavelmente surgem pela própria natureza do evento se resolveram sem mais. De tirar o chapéu.

Tudo começa com a entrega dos dorsais, no dia anterior, no Centro Comercial El Rosal, com a surpresa de encontrártelo personalizado, um detalhe que representa um grau de complexidade extra importante. O chip é adesivo, para o centro, outro detalhe que representa menos incômodo. No mesmo centro comercial da entrega pudemos verificar que o seu chip estava bem codificado, sem aparecer o seu nome ao passá-lo pela zona de detecção. A verdade é que é impossível não sentir já emoção vendo tudo o que gira em torno de 101 Peregrinos, mas toca deixar de dar voltas à cabeça,e ‘desemocionarse’ um pouco para descansar. Um bom jantar, deixamos o culotte e maillot preparados, proteção solar à mão, mangas, perneiras, um par de barras, o monitor do ritmo cardíaco com a bateria carregada ao máximo e dormir.

Assim, 'fresco' é o perfil da 101 Peregrinos... o total nada, quase não há ladeiras...!

Assim, ‘fresco’ é o perfil da 101 Peregrinos… o total nada, quase não há subidas…!

Reconheço que não me tinha fixado bem no perfil, a distância é longa, embora acessível, mas o desnível… ai, o desnível! Quase 3.500 metros de subida, e outros tantos de descida, dão um toque especial à “101” e te deixam as pernas ‘finas’.

Pequeno-almoço potente, Camelbak a fartura de água e colocamos rumo à área de saída na pista de atletismo do ginásio poliesportivo de alfredo marques augusto. Sol, risos, excitação, muitas selfies e um cheiro a mentol que flutua sobre as nossas armações, das mais variadas, desde rígidas de carbono ‘copa do mundo de XC’ duplos comodonas, e não apenas leves. Eu queria testar a versatilidade da Trek Remedy 9, uma máquina com toque enduro cujo habitat preferido são os caminhos complicados. Não me decepcionou em nada, muito pelo contrário, embora todos nós sabemos que isso é mais uma questão de coração, pernas e horas movendo-as de montaria. O mesmo que com as bicicletas acontece com os ciclistas, alguns parece que acabaram de vir da grelha de partida de uma copa e outros…a verdade é que eles têm muito mérito com o ‘excesso de bagagem natural’ que assumem por companheiro inseparável. ¡Biodiversidade humana ao poder!

Nunca antes ele havia participado de uma marcha organizada de mountain bike tão longa, tenho de reconhecer que não as tinha todas comigo quanto a acabar com um resto de dignidade na mochila. O que é fim, é uma questão de vontade, de comer, de beber, dosar as forças com a cabeça e perseverança, mas acabar com a alegria dos quadríceps e suficiente glicose no cérebro para ser consciente disso, isso já era um desafio para mim e com certeza para muitos mais.

Parecia que alguém tinha abrandou o tempo…mas por fim se deu a saída, começaram as primeiras pedaladas, fáceis, com um monte de gente torcendo, tendo encontrado nas ruas de Maceió. Atravessamos o Atlântico pela primeira vez, boas-vindas ao majestoso castelo Templário, em metade das rampas curtas que o ladeiam e em seguida descemos para atravessar o rio Boeza, tomar rumo oeste e voltar a nos encontrar com as águas tranquilas do Sil, que será testemunha do nosso pedalada durante boa parte do percurso inicial. Pouco demorou até que o terreno ondulante e o falso plano em se tornar rígido ascensão, protocolo que seria norma em multidão de ocasiões. ¡Hala, para colocar o prato pequeno e acelerar as pernas, que não convém abusar de desenvolvimentos tão cedo! O que logo estávamos subindo as batidas!

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O ambiente entre nós é de extrema cordialidade e companheirismo, vemos muitos pilotos desempregados por furos e sempre tem alguém disposto a ajudar. Pode ser que a cabeça de carreira, que ainda podemos ver, não seja igual a coisa, mas aqui vamos conversando que nos permitem nossos resoplidos, perguntando uns aos outros por bicicletas e até pela situação em casa para andar de bicicleta, sem conhecer nada.

Vamos separándonos do Sil, ribeirinhos e subindo parte do monte Pajariel e cruzamos Toral de Merayo, que nos recebe com o Oza, para que não olhemos menos a agradável companhia de um curso fluvial. O seguinte vai chegar a Villalibre de Jurisdição, depois vamos vendo-município-para a direita, sem chegar, Santalla e em seguida as preciosas Barrancas de Santalla, com o Sil a nossa vera, uma boa notícia já que acompanhar o seu curso significa pouco desnível…mas paramos rapidamente e começa uma forte subida em direção a San Juan de Paluezas, que nos levará, em seguida, para o Verão, deixando Carucedo à direita. Chega uma das áreas de mais apreciação visual, o sugestiva paisagem de las Médulas, Património da Humanidade resultado de uma exaustiva exploração aurífera que levaram a cabo os romanos, remodelando completamente o terreno, com terraplanagem e picos alaranjados de formas impossíveis. No percurso de volta, teríamos uma visão mais panorâmica, esse era o nosso primeiro contato e já me sentia feliz de poder estar a desfrutar de todas estas vistas sem mais ajuda do que as minhas próprias energias, a magia da bicicleta.

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Uma das ‘cuestitas’ em que você vai enfrentar no 101 Peregrinos.

Estávamos que se aproxima ao equador da prova, no ponto mais a oeste do percurso depois de cerca de 46 km, Ponte de Domingo Flórez, um lugar carregado de história, pela sua localização, já que era passagem obrigatória entre o Reino de Leão e Galiza, a forma mais lógica de atravessar o rio Cabrera por isso teve ao seu próprio portazgo. Com um potente abastecimento, e um serviço de afinação de bicicleta (veio-me bem o ‘tiro’ de lubrificante para a corrente que lhe pus) nos restablecimos minha bicicleta e eu, para poder enfrentar uma dura zona de subida de cerca de 450 metros de desnível em 4 quilômetros até San Pedro de Trones, em um loop que nos devolvia a Ponte de Domingo Flórez.

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Subindo a partir de Puente de Domingo Flórez para San Pedro, uma área bonita e não isenta de dureza, embora o dia ensolarado diminuindo o cansaço das pernas e feliz a alma.

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Após este ciclo, que chegaria o trecho de subida o mais longo, que nos pegou com bastante calor, cerca de 15 km de subida até chegar ao mirante de Orellán ganhando cerca de 600 m de altura, uma maravilha de perspectiva elevada sobre as Medulas, talvez a melhor, no ponto mais alto do percurso depois de ter feito a 70 km

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Bela vista de las Médulas desde o Miradouro de Orellán. Um dos ‘regalitos’ esta fantástica rota.

A partir daí temos uma divertida e rápida descida, atravessamos A Chana, passamos por Paradela de Muces e chegamos até o majestoso castelo de Cornatel, com uma bela vista, que se começa a observar antes de chegar a Villavieja e continuar gostando depois de ultrapassar este povo.

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O espetacular Castelo de Cornatel nos torna mais ameno o curso. Impossível não parar para fazer uma foto.

Não tinha que fazer um grande esforço, com a imaginação, para ver por suas ameias cavaleiros da Ordem do Templo vigilándolo tudo. Além do próprio castelo e a sua história, os caminhos que o rodeiam, são muito divertidos e estimulantes. O seguinte povo seria Santalla do Bierzo, onde, com grande surpresa, o abastecimento incluía lacón, ovos cozidos com pimentão da terra e enchidos bercianos… você é muito bom! Entre o rico que por si só é o que nos dão e a fome que dá levar toda a manhã pedalando, aquilo que nos conhece a glória bendita, sintoma claro de que os nossos depósitos de glicogênio andam flaqueando. O certo é que, para mim, é outro dos grandes prazeres deste tipo de percursos maratona, maravilhosos, que se tornam atos cotidianos como comer ou estar sentado contemplando o mundo se mover ao redor.

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Não é um restaurante ao ar livre, é o tentador abastecimento de Santalla do Bierzo. Que rico estava todo e que bem nos sentou-se! Com um balde de água e talvez algum gel energético te sobra para fazer a rota completa, e mais por precaução do que por uma necessidade real. Com postos de refresco a cada 6 a 7 km, pensados para os que vão a pé, você não precisa realmente levar nada de comer andando com a bicicleta.

Tínhamos feito já 86 quilômetros, já andávamos um pouco renqueantes e ainda nos restavam cinco escorregas para chegar a Maceió, cerca de 280 metros de desnível positivo que somar à equação. Não foram obstáculo mas sim que fizeram mossa nas nossas pernas. Agora estávamos realizando o curso inicial-versa, deixando-Município para a esquerda, passando por Villalibre com suas belas sacadas, atravessando zonas de vinhas férteis e atravessando o Oza sobre o robusto ponte romana de Toral de Merayo. A partir daí logo voltaria a acompanhar o curso do Sil para dar uma pausa em que nos permitiu mover o prato grande com alegria, dê gosto acabar assim! Entramos em Ponferrada sabendo que os deveres são feitos, após mais de 9 horas de viagem por Espanha, sem descontar o tempo das paradas, e com o odômetro mostrando-nos a terceira figura, algo que não costuma acontecer muitas vezes durante a temporada de um motociclista.

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Três dígitos no hodômetro, com a mostra de que somos um pouco ‘bipolares’… Estávamos aproveitando para testar o Polar V800, comparando com o Polar RC3GPS.

Cruzar a linha de chegada, faz você se sentir grande, com recebimento musical sob o arco de meta e a sua própria medalha personalizada e gravada com o tempo que fizeste, para que não se esqueça nunca de que venceu a 101

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A ‘101 Peregrinos’ é uma dessas velocidades que vos recomendamos abertamente ir, sem dúvida alguma, não só pelo próprio aspecto desportivo, que por si só é ‘excelente’, mas também, ou mesmo com mais peso ainda, pela própria visita à comarca do Bierzo que lhe permitirá mergulhar de sua arte, sua história e suas paisagens. É mais do que recomendável tirar alguns dias de folga para conhecer a região, um sugestivo ambiente cheio de mistérios que você vai descobrir sozinho ou com seus acompanhantes, família, etc. ficar em lugares com encanto, comendo como um rei, passeando pelos mesmos locais que os Romanos levavam o ouro séculos atrás e descobrir as formas de vida tradicionais dos povos leoneses.

Não espere mais, marca em vermelho o 2 de maio de 2015 em sua agenda e começa a sair com sua bicicleta, porque nesse dia se esperam em Ponferrada uma centena de quilómetros de prazer e bom ambiente desportivo. E não quero terminar este texto sem agradecer com admiração o grande trabalho de David Pacios, presidente do Clube Desportivo 101 Km Peregrinos, visionário e trabalhador como poucos e, claro, a de centenas de voluntários que prestam esse dia para garantir o bom funcionamento da complexa máquina de 101, sem eles, sem o seu suor, sua paciência, seu entusiasmo e seu excelente trabalho nada do que vos temos contado seria possível. Também não teria sido possível que vos estivesse relatando isso sem a insistência de meu amigo Ivan edison luis nunes, “você tem que vir, você vai adorar, o percurso é lindo, há áreas com umas descidas onde você vai passar de cinema, verá o que bem se come por aqui…” Ivan tinha razão em tudo. ¡Obrigado!

Se quiser mais informações, entre na sua página web http://101peregrinos.com/

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