Correr uma maratona é coisa de animais

pessoas de Runners me pediu para uma reportagem de maratonas pelo mundo que se lembrasse de minha experiência em Big Five Marathon em 15 linhas. E voltei a ler o artigo que fizemos de um dia para o Sport Life. Foi uma das melhores experiências que tive como atleta: correr os míticos 42’195 em plena savana com os animais em liberdade. Aqui recupero o relato. Espero que gostem.

Em Entabeni tem-se realizado o Big Five Maratona de cinco anos. O lugar é espetacular, já que é presidido por uma bela montanha (de fato, Entabeni significa o lugar da montanha), com um lago a seus pés. Chegamos numa quinta-feira à noite, para correr no sábado. Sexta-feira, a organização se oferecia a oportunidade de fazer um safari de 42’195 km, já que lhe levavam a ver inteiro o percurso da maratona. E não sei se foi boa ideia… Esta maratona é, juntamente com o que se corre no Parque Natural de Lewa (no Quênia), o único do mundo em que os atletas correm junto com elefantes, leões, rinocerontes e outros animais sem cercas nem rios que os separem. Eles lhe garantem que o tem sob controle, que colocam “babysitters” os animais perigosos para os “Big Five” durante a noite e que não daria a saída, se houver algum deles perto do curso. E as cobras, perguntei eu?. “Agora mesmo estamos no inverno e estão hibernando”. Tudo muito bonito até que no km 23 de nossa inspeção, encontramos um casal de leopardos cercando a cerca de impalas. Ao vivo pudemos ver a sua manobra de caça… Não me custou muito colocar meu rosto no corpo da impala pensando que no dia seguinte eu não ia ir carregado no caminhão.

Sim, o que mais me “acoj…” não foi o encontro com os cientistas, mas a custa mais besta que eu já vi na minha vida. Tinham-Nos dito que para mudar de vale descia e depois subia-se por um trecho de um desnível enorme. Como eu sou de Lisboa, ao pé do Puerto de Navacerrada, eu pensei que já seria menos?. Pois não, abaixando o caminhão se inclinou tanto que parecia que você estava em uma atração de Port Aventura. Em apenas quatro quilômetros bajabas (e mais tarde subías) 440 metros. A maratona era difícil até para fazê-lo no caminhão. Com a paragem de ver a caça dos guepardos, demorou quatro horas (vamos lá, o mesmo que, no dia siguienta “à perna”).

Na entrega de dorsais, apesar da tentação depois de ver o “cuestarraco”, Yola, Joan e eu decidimos não rajarnos e apesar da tentação de mudar o meia maratona nos apegamos aos 42’195. Dão-Nos uma t-shirt oficial da Puma, está claro que neste maratona não podia ser de outra marca… O chefe dos Rangers da Reserva Nacional, dá uma palestra para tranquilizarnos. Nos dá dicas por se deparamo-nos com um leão. “Não sair correndo, se você fugir pensam que você é uma presa fácil. Você deve recuar lentamente. Uma vantagem que temos os homens é que nós vamos erguidos e isso transmite aos animais uma posição de ameaça que torna mais difícil que se decidam a nos atacar”. A teoria cojonuda, mas que a coloque em prática outro.

Já estamos aqui…

A saída é às mesmas portas do hotel junto a um lago em que estamos. Comparando com o boa brincadeira da Maratona de Nova York que você tem que levantar cinco horas antes, aqui é o contrário. Começava às 8 e eu me levantei às sete menos um quarto. Como eu sabia que isso ia para longo (pelo percurso e, porque não tinha feito nem um filme de mais de uma hora e meia (todo o ano), pequeno-almoço, mais do que o normal em mim. A minha habitual iogurte com cereais, adicionei um par de torradas com manteiga e geléia e chá rooibos (é o normal por aqui e é muito bom).

Éramos polegadas (juntando aos da maratona e da meia não chegávamos a 150) e que as “pintas” não se via muita gente com nível. Vamos lá, eu fui para a saída com uma t-shirt do Barco no plano celebrar o golo e nem chamava a atenção.

Os “babysitters” os leões, os rinos e os elefantes deram o visto bom e as oito da manhã em ponto, ele deu a partida. Joan e eu nos colocamos na cabeça para deixar boa lembrança aos nossos filhos que estavam a 200 metros da saída.

No primeiro cruzamento, vimos um ranger com o rifle e isso te lembra que lá fora estão os “gatinhos”. Eu tinha claro que com o que havia treinado era melhor que reservará tudo o que pudesse. De saída, tinha uma subida de 2 km para subir do lago até uma espetacular pradaria onde enquanto corrías viste um monte de animais: gnu, kudus, é claro que muitos impalas, facocheros? e até um coelho que me chamou a atenção para a vida estressada que eu tinha que levar lá. nós íamos os dois primeiros e Joan gostou tanto que se manteve na frente até o km 23 (ao final terminou no pódio, em terceiro).

Na primeira parte corro junto a um dos garçons do hotel (o que, então, dei as chinelos) que iam por impulsos. Em subidas ficava mas depois recuperava a toda leite em campinas e se voltavam para pegar. Uma tática que lhe levaria ao abandono. Na altura do km 15 começava a grande descida por um espectacular canhão. Era tão íngreme que havia corredores que ficaram abaixo fazendo esses ou até mesmo a pé. Eu me lembrei que sempre nos diz Rodrigo Gavela, que em descidas não sofre de coração, mas muscularmente te deixa tão tocado que não se recupera, e eu tentei tomármelo com calma. Nas zonas de maior declive dava pequenos saltos para não embalarme tanto, e apesar de tudo isso eu pusé terceiro, quando começamos a fazer o loop por esta área, que era a típica savana. Fazia muito mais calor e, além disso, se corria pior, porque havia muitos trechos de areia solta, tipo praia. Foi aqui onde eu tive os meus dois únicos momentos digamos, de “tensão animal”. O primeiro, pouco antes da meia maratona, quando ao atravessar um pequeno rio, havia duas girafas bebendo. Ficaram nervosas e cruzaram o caminho duas ou três vezes de um lado para o outro, correndo a toda cana. Olha que me parecem simpáticas, mas antes de seu final, parei um minuto, até que se afastou um pouco do caminho. O ser atropelado por uma girafa não entrava nos meus planos.

Como curiosidade nesta área existe um campo de golfe protegido dos animais por uma vedação electrificada que tem o considerado como o buraco mais difícil do mundo. Jogar os 18 buracos clássicos e para o 19 se levantam em helicóptero ao topo da montanha e de lá você tem o green em frente – mas a 500 metros de altitude mais baixo. Dar um milhão de dólares para que consiga fazer um buraco em um. Sergio García tinha estado em fevereiro testando, mas sem sorte. O segundo momento de “miedecillo” foi pouco depois de passar a média de 1h 45′, ao chegar à área onde tínhamos visto caçar os guepardos. Não sei se foi o subsconciente, ou que era uma área onde a vegetação era alta e não parecia que havia para além do caminho, mas eu comecei a ouvir ruídos.

Para tranquilizarme lembrei-me de que nos tinham dito para remover o medo dos gatos, é que o animal que mais mata na África (depois do mosquito da malária) é o hipopótamo que embora os desenhos animados parece muito simpático, na realidade, tem muito mau leite. Contra os conselhos, eu fiz o mais lógico: acelerar um pouco. Felizmente, pouco depois, vi ao longe uma salvadora guarda-sol de Coca-Cola, estava chegando ao abastecimento, situado ao pé da super-custa.

A subida, eu acho que não esperábais outra coisa, diretamente a pé e aproveitando para avitulluarme. Eu levei uma banana e um par de sacos de água e lá fiquei quase uma horita para coroar. Havia zonas que tinham asfaltado para que os caminhões pudessem subir e apesar disso tinham que colocar a caixa de velocidades. Havia zonas em que, para poder subir precisava avançar com as mãos nos joelhos.

Uma vez em cima, o pior já tinha passado. Eu tomei um gel no km 30, e para a parte final. A partir daqui era muito lisa e tudo presidia Entabeni, a grande montanha, que tinha sempre à vista. Mas continua a ver muitos animais (outros pilotos disseram-me depois que viram um rinoceronte para 200-300 metros de onde passava a corrida, mas o mais estranho que eu vi foi um avestruz), eu já estava mais pendente de terminar como fora do que de outra coisa. Eu gostei do que os quilômetros estavam marcados para trás. Isso, o primeiro que viste era o 42. Parece uma bobagem, mas quando você estava por 37 dava-te uma descarga ver um cartaz de 5 km

Tinham Me passado uns quantos, mas a falta de 2 km ainda ia em uma série para mim sexta posição. Ainda faltava a surpresa final, uma custa curiosa de 500 km que subi correndo, mas mais por orgulho do que por outra coisa, e já todo descida para o lago. No gol estavam meus filhos perseguindo um macaco e Joan que tinha entrada 10 minutos antes na posição de bronze. Foram 4 horas e 12 minutos da maratona mais especial de quantos tenho corrido (vou por 18). O vencedor tinha sido um sul-africano em 3h 30′, um tiempazo tendo em conta a custa. Yolanda, minha mulher e nossa grande responsável pela saúde e nutrição na revista, terminava quarta, feliz, mas um pouco fastigiadas porque iria segunda até 6 km de chegada, que a haviam adiantado dois de nova iorque na década.

No “Big Five “Marathon” os resultados são um pouco menos. O que conta é viver a experiência. Não há prêmios económicos e os últimos, que levou mais de sete horas, têm as mesmas atenções na chegada (e até mais aplausos).

E nós comemos um McDonald’s da Savana

Após a corrida, nada de uma barra energética e um Powerade, um espetacular buffet e cervejas. Em seguida, banho refrescante na piscina. 42 km o que eu temia eram as sequelas da grande descida).

À noite, celebração em grande estilo. Primeiro um safari com paragem para ver um fantástico pôr-do-sol enquanto tomamos um lanche junto a umas fogueiras e, em seguida, de volta ao hotel, demonstração de danças típicas e jantar de entrega de prémios, em que, nós também, nós comemos um McDonalds da savana, ou seja, um impala (que por sinal, de sabor rico, mas a carne é muito dura). Um safari de madrugada, seguindo pegadas e excrementos para localizar uma manada de elefantes, foi a melhor despedida de uma viagem inesquecível. Mais uma vez o esporte foi uma excelente desculpa para aproveitar a vida.

Como uma maratona para milionários?

Obviamente não é uma viagem para todos os bolsos, mas não inatingível. O preço da viagem ao Big Five Marathon, tal como nós o fizemos, com a extensão do Parque Kruger e ‘tudo incluído’ sai quase como ir à Maratona de Nova York, sobre os 2.500 euros, mas há uma opção de se concentrar apenas na maratona e ir direto para o Entabeni que custa sobre 1.800 €. Se lhe atrai a ideia de correr no jardim dos leões o ano que vem o Big Five Marathon é comemorado no dia 22 de junho

Por Fran Cara

Mais info em www.sportravel.es

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