Crônica de um sonho | A vida é o melhor esporte

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Era 11 de abril e estava a dormir a sesta quando tocou meu telefone. O que chamava era o presidente da Federação de Triatlo de Castela e Leão, Amancio do Castelo, para comunicar algo que já havia trabalhado durante muitos meses: faria parte da selecção portuguesa no Campeonato do Mundo de Duatlón de Pontevedra. Algo esperado após o quarto lugar no nacional de Avilés, mas não por isso menos entusiasmante. Ser internacional iria significar um prêmio não só para mim, mas também para todos aqueles que, como eu, tentam desfrutar do esporte enquanto trabalham, estudam ou fazem as duas coisas sem nenhuma outra remuneração que a própria satisfação do esforço realizado.

A partir desse momento passei a preparar um encontro que seria realizado no dia 31 de maio, que viria algo passado de forma e que, além disso, estava a disputar em distância curta (10-40-5). Sofridas sessões de treino -quase sempre solitário- durante mais de um mês e meio foram a tônica habitual até a citação pontevedresa. Tudo isso somado às horas de trabalho e os exames na universidade provocaram que em alguns momentos a moral decayese. Mas não era o momento de ruir. Ia a cumprir um sonho.

A semana que antecede a citação em Pontevedra da dediquei principalmente para descansar. O trabalho estava feito e era necessário assimilar todos os quilómetros percorridos e, acima de tudo, chegar fresco para a corrida. Meu objetivo nesses dias foi reservar o meu corpo e tentar chegar a linha de partida da corrida com uma imensa vontade. E assim foi. No sábado eu só queria correr e desfrutar.

O sexta-feira pela manhã, dia anterior à competição, cheguei à cidade galega com o resto da seleção espanhola. Depois do reconhecimento do segmento rígido ciclista fomos para a inscrição de atletas e ao posterior ‘breafing’ ou reunião técnica, momento em que devem ficar claros todos os detalhes da prova, em especial os trechos na área de boxes, que costumam ser os mais sensíveis. Com todas as dúvidas resolvidas voltamos ao hotel para desfrutar de um jantar saudável e um -mais do que necessário, no meu caso – ColaCao.

Aproveitar a manhã de sábado para dormir ia ser o objetivo principal de frente para a carreira, que iria disputar as seis da tarde. Este tipo de dias, em que os nervos querem aparecer por todos e cada um dos poros da pele, o melhor é relaxar na cama, fechar os olhos e ouvir música. Assim, passou a manhã até quatro horas antes da saída, quando estava planejada a comida. Este ponto é importante para mim. Desde que era benjamim tive muitos problemas de flato e dores de estômago em treinos e competições derivados de uma má digestão, por isso que eu preciso de, no mínimo, quatro horas após a ingestão do alimento até a prova de corrida de forma confortável.

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Após a refeição havia tempo suficiente para preparar tudo de cara para a competição. Dorsais em a bicicleta e o capacete, tatuagens para os braços e as pernas, tambores de água (é o que melhor me vem na carreira) e os géis de cafeína. Em corridas de distância sprint (5-20-2,5), que são as mais comuns no calendário nacional, não costumo comer nada, mas em Pontevedra as distâncias que se multiplicaram por dois, o que obrigava a, pelo menos, ingerir um gel durante o setor ciclista. Com tudo preparado e uma margem suficiente até a saída, não houve mais remédio do que cair na cama e dormir. Sim, outra vez dormir.

Com duas horas de sono a mais e um pouco mais de uma hora para a saída, os membros da seleção espanhola na categoria Elite e Sub-23 masculino nós deixamos o hotel para poucos minutos após chegar ao Centro Galego de Modernização Esportiva, onde se encontrava o centro nevrálgico da competição. Foi nesse momento que compreendi a extensão da citação. Todos os arredores da zona de boxes estavam repletos de pessoas dispostas a desfrutar da corrida. Mas isso era apenas uma pequena amostra do que viria depois.

  • E por fim, veio a corrida

Preparar a consciência na zona de boxes é essencial. Para mim é um dos momentos de máxima concentração, o que devo visualizar as mais perturbadoras transições. A partir desse momento é melhor do que ninguém de fora da corrida me fale. Eu preciso desses minutos para poder motivarme ao ouvir as duas músicas de sempre e, também, para desfrutar, desde que minha bolha, do ambiente antes da partida.

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Uma extensa e interminável apresentação dos 71 duatletas precedeu a saída que, após os primeiros metros de corrida, me deixou as últimas posições do grupo. Nestes momentos há que manter a cabeça fria, ter em conta que resta pela frente todo um 10.000 antes de pegar a bicicleta e tentar formar um grupo que facilite o trabalho no setor ciclista. As sensações durante esta primeira corrida a pé e não foram, de todo, boas devido, entre outras coisas, ao intenso calor da tarde, em Pontevedra. Mesmo assim consegui salvar a situação e chegar à primeira transição com um grupo em que se encontravam vários companheiros de seleção que têm um nível semelhante ao meu.

Meu objetivo na bicicleta era claro: reservar e hidratarme. Desde os primeiros metros cãibras ameaçaram com fastidiar todo o trabalho, por isso que comecei a beber muita água. Nas primeiras voltas, eu sofri muito por não ficar em cada curva do circuito. Afetado por alucinante de cãibras e também pela minha condição de ciclista nada explosivo cedia dez metros nos chicotes do grupo, o que me obrigava a sofrer para prender de novo a linha de corredores. Não foi até a quinta das oito voltas quando, após ingerir um gel de cafeína, comecei a notar melhores sensações.

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Foi nesse momento que conseguimos alcançar ao grupo perseguidor dos seis homens de frente da corrida, algo que nos entrou de cheio na luta por, não só o ‘top ten’ de corrida a Elite, mas também o título mundial na categoria Sub-23. A partir desse momento eu tentei ocupar as primeiras posições do grande grupo para, entre outras coisas, evitar deixar-me esses metros nas curvas do traçado ciclista. As sensações eram muito melhores e, com a transição cada vez mais perto, acreditava que na segunda corrida a pé, poderia fazer um grande papel.

Mas, como se a leiteira em seu conto se tratasse, foi sair da bicicleta e os dois gêmeos subiram, fazendo com que, desde os primeiros metros do último 5.000 meu único objetivo fosse chegar à linha de chegada de forma digna. Com o passar dos quilômetros , as dores aumentaram, mas consegui manter o ritmo, o que me levou a chegar a três duatletas para chegar à linha de chegada completamente exausto e muscularmente derrotado.

  • Conclusões de uma experiência inesquecível

Ao final décimo terceiro Sub-23 e 33 na categoria Elite. Resultados aceitáveis que são, para mim, uma mera anedota. Porque o que me resta desse dia é a sensação de ter vivido a experiência esportiva mais plena de minha vida. Por ser internacional, para disputar um Campeonato do Mundo, por me deixar no asfalto até o último grama de força, mas, acima de tudo, por viver em primeira mão a sensação de um público entregue com os atletas. E é que na corrida de Pontevedra, houve momentos em que apetecía parar e observar a toda essa gente que se havia lançado nas ruas para incentivar a cerca de corredores entre os que, por sorte, encontrava-me eu. Esse sentimento vai durar em mim para sempre.

Foi o culminar de uma época que, a partir de novembro a maio, tem estado repleta de grandes momentos. Mas a partir desse mesmo sábado tive claro que este Campeonato do Mundo , não era mais que um lapsus a tônica habitual de um atleta popular que dedicará seus esforços para tentar repetir algo que, por narrado em estas linhas, pode parecer irrepetível.

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  • As duas semanas chave de treinos

Das seis semanas que dispuse para preparar o Campeonato do Mundo de Pontevedra, houve dois que foram especialmente duras e produtivas. Como já expliquei antes, a semana que antecede a corrida queria descansar bem, é por isso que os treinos fortes deveriam começar a três semanas antes da competição. Foram catorze dias com um único dia de “descanso” obrigado por nos exames da universidade.

Nestas sessões de treinamento, o meu treinador e eu tentamos combinar dias de séries a pé, filmagens longos, treinos, séries na pista e, acima de tudo, transição ciclismo-corrida. Além do treinamento inicial anexado na tabela, é necessário apontar que em todos os dias de séries realizava uma sessão de técnica de corrida e no final da sessão abria pelo menos 10 minutos.

Além disso, depois de todos e de cada um dos treinos esticando bem os músculos, após ter introduzido as pernas em água fria para facilitar a recuperação. Também completava as sessões de treinamento de alguns dias com abdominais e exercícios posturais que são altamente recomendáveis.

Segunda-feira, 12Terça-feira, 13Quarta-feira, 14Quinta-feira, 15Sexta-feira, 16Filmagens 20′ +[15×400 (rec. 1′)]1 hora ciclismo + 10 quilômetros filmagem Filmagem 20′ +[5×2000 (rec. 1′)]2 horas ciclismoRodaje 14 quilômetrosSábado 17 EDomingo 18Segunda-feira 19Terça-feira 20Quarta-feira, 21Filmagens 20′ +[1000 + 2000 + 1000 (rec. 1′)]2 h. 30′ ciclismoRodaje 20′ +[12×500 (rec. 1′)]Filmagem 14 kilómetros1 hora ciclismo + [Filmagens 20′ + 5×1000 (rec. 1′)]Quinta-feira, 22Sexta-feira, 23Sábado 24 EDomingo 25Descanso ativo.Filmagens 25′ + GimnasioRodaje 12 kilómetros1h.30′ ciclismo +[3000 + 2000 + 1000 (rec 3′)]2 horas de ciclismo

Por Nacho Barranco –@n_barranco

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