Desafio Verde: Etapa 1. Roncesvalles-Pamplona-Olite

Por Telmo Aldaz

Muitas vezes, quando alguém escreve algo, a partir de uma nota em um guardanapo até um tratado sobre direito romano, pense se alguém o lerá e como tem que contar o que lhe interessa ou lhe apaixona.

A mim me emociona Portugal. Eu amo a terra, que me ensinou a minha mãe desde antes de ter o uso da razão. Tivemos a sorte de meus dois irmãos, Mar e Leonel, de se locomover pela cidade inteira, Finisterra até o Cabo de Gata, do Cabo de São Vicente e caxias do sul até o Cabo Roses, em uma época diferente da de agora; mais tranqüila, menos estressante, ou, pelo menos, desde os olhos de uma criança era essa a impressão.

Já se passaram alguns anos e não se apaga a emoção cada vez que tenho a sorte de poder voltar a visitá-lo com o espírito e os olhos daquela criança que fui.

Ir Rumo ao Sul, mudar a alma, buscar o calor e o céu azul, para deixar o inverno e o frio, é um costume atávica em todos os seres vivos. Nós, como os grous quando se aproxima o inverno, também precisamos ir para o Sul para continuar a sentir que estamos vivos.

ERS Desafio Verde nasce depois de dez anos viajando pelas terras irmãs de África, com um projecto desafiante como é a Espanha Rumo ao Sul; programa de formação prática para jovens inquietos e empreendedores, que decidem deixar a proteção e a segurança que oferece o cotidiano e dar o salto para ver realidades diferentes da sua, conhecendo de uma forma direta, outras realidades.

Uma tarde, em Madri, que já deixava ver o início do outono, nos reunimos vários amigos do time africano e falando de tudo um pouco, dava pena que uma das consequências desta bem-aventurada crise que esta sofrendo a nossa época, é a sensação que desde os países “desenvolvidos” deixaram de lado a cooperação internacional e a sensibilização geral que se tinha conseguido o respeito ao meio ambiente. Estas idéias, as de cooperação e ecologia, podem parecer banais, quando não se tem nem para comer, mas se algo caracteriza uma “civilização”, é a de ver as coisas com perspectiva para desta forma avançar de uma forma positiva e não auto-destrutivo. Também procurávamos o tema de Portugal e do potencial humano, natural e técnico que tem esse bendito país.

Nesta reunião estava Anjo Sevilhano, Bombeiro da Comunidade de Madrid, Carlos Touro de Málaga e Paulo Martos e eu de Navarra. Decidimos que para “tirar peito” podia gabar-se de país da melhor forma que sabemos: viajando. O desafio consistia em atravessar Portugal de norte a sul, utilizando única e exclusivamente meios de transporte Ecológicos”, com zero emissão de carbono, sem poluir. Para isso usaremos todo o tipo de veículo não poluente que é fabricado ou comercializado em Portugal.

E o que nasceu como uma idéia já é realidade.

Lhes escrevo a partir da Real Colegiada Roncesvalles, em Navarra. Lugar emblemático para a história deste Velho Reino dos pirenéus, onde descansam os restos de um dos reis medievais mais conhecidos como foi Sancho, O Forte, vencedor das Navas de Tolosa, onde o poderoso Carlos magno sofreu uma de suas derrotas mais amargas, perdendo um de seus melhores cavaleiros.

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Lugar obrigado de passagem para todo peregrino que busca Compostela e a tumba do santo Apóstolo desde há mais de mil anos, recebe-nos com uma nevada impressionante, refugiados no albergue de peregrinos, e sacudidos pelos trovões que produzem as avalanches de neve que caem nos telhados do mosteiro. O pároco desta igreja, nesta fria manhã de fevereiro, sob a tamanho da Virgem de Roncesvalles e o Túmulo de Sancho, o Forte, dá-nos a bênção, como as milhares de almas que vão quando fui, em peregrinação, na eterna busca. A sorte esta lançada e não há mais remédio que seguir Rumo ao Sul, como os grous no inverno. Continuará…

CAMINHO VERDE

Por Henrique Peris

“790 quilômetros até Santiago de Compostela”. A saída de Roncesvalles, o sinal de trânsito que nos fornece essa informação, aparece algo desvanecimento esta manhã pela neve que tem formado uma imponente camada branca que cobre toda a área. Esse cartaz marca nesta ocasião, o ponto de partida de um caminho de algo diferente do que percorrem os abundantes peregrinos que, a cada dia, também nesta época do ano, embora muitos possam pensar o contrário, colocam em direção ao noroeste, sem deixar-se desanimar, muito menos intimidar, pelo mau tempo.

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Em Roncesvalles começa este “Desafio verde”, que o povo de Portugal Rumo ao Sul lançou para, entre outras coisas, provar que é possível percorrer Portugal de ponta a ponta, com veículos não poluentes. Possível e divertido. E, viável e sustentável do ponto de vista econômico e ambiental. Ou seja, é possível e desejável, embora muitos, às vezes, nos dê a impressão de que as coisas neste campo não se movem, por razões não muito claras, tudo depressa do que seria de esperar, dada a importância do assunto e a gravidade do problema do aquecimento global e da poluição em grandes áreas do planeta.

“Mas de verdade vão poder sair de bicicleta com tudo isso nevado?”, pergunta em tom de incredulidade, uma senhora, que observa os preparativos junto a Roncesvalles. “Sem problemas. Isso é feito”, lhe respondem os ciclistas, que, convenientemente equipados de itens de abrigo de Ecoalf, eliminam suas bicicletas elétricas BH, Yamimoto, Estilo e Quipplan, com as quais, graças a um pequeno motor e a bateria, multiplicarão o desempenho de seu esforço ao pedalar.

Alguns minutos depois, Telmo Aldaz, Anjo Sevilhano, Paulo Martos e Carlos Touro, põem-se em marcha, com efeito, caminho de Pamplona. Formando comboio com eles, saem vários veículos, também com o indicativo de Desafio verde”, que se caracterizam pelo fato de que não somos alimentados por combustíveis fósseis. São um Renault Zoe, surpreendentemente silencioso em sua marcha, e dois pequenos veículos Comarth muito simples de manejo e de aparência leve e funcional. A eles se junta uma moto BMW, que, tal como os carros, funcionam com um motor elétrico e pode ser carregada em uma tomada convencional.

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O caminho entre Sarracenos e a capital de navarra, com suas paisagens cobertas de neve em boa parte do percurso, torna-se um deleite para os olhos e para os sentidos. É um caminho sem pressa, especialmente para os peregrinos, em pequenos grupos ou individualmente, passam pela estrada com destino em Compostela e olham com curiosidade essa linha de bicicletas e de carros de formas e designs pouco habituais, que expressam a sua determinação de não emitir gases poluentes ao longo desta marcha. Os organizadores querem chegar a Málaga em quinze dias, atravessando Navarra, Aragão, Lisboa, Lisboa, Madrid, Toledo, Cidade Real, Leiria e Aveiro, e convidam a todos que compartilhe essa preocupação e esses bons propósitos em benefício do planeta em que habitamos, a somar-se a esta espécie de manifesto prático em favor das energias limpas, juntando-se ao comboio e marchando com ele, por qualquer meio que não suponha emissão de gases nocivos para o meio ambiente.

O caminho dos peregrinos e dos protagonistas deste desafio verde coincide, assim, a geografia de alguns de seus trechos, e uns e outros partilham, também, muito do espírito que anima a sua marcha.

FUTURO CONDICIONAL

Por Luis Pintor

Transitas à meia-noite em Pirineus navarro, e o único som que você percebe é a neve que range sob as rodas. O carro elétrico parece fazer parte da Natureza, sem ruído, sem emissões. O futuro, dentro, talvez, de vinte-trinta anos, será assim. Mas agora, o desafio verde de Portugal Rumo ao Sul, é exatamente isso: um desafio cheio de atrações, incertezas e mais de uma lombada. Vamos atravessar a Península de Norte a Sul em veículos não poluentes, bicicletas, motos, automóveis, caminhões… será, por vezes, divertido, cansado também, nos exige além de paciência e bom humor.

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Na primeira tomada de contato, os veículos da caravana surpreendem –positivamente – por suas prestações. As bicicletas facilitam o cruzamento dos portos de montanha, aumentam significativamente a potência exigida para o ciclista sem degradar o esporte, as motos e automóveis oferecem um desempenho comparáveis aos de combustão, incluindo os minicamiones cumprem perfeitamente seu trabalho de logística. Você poderia chegar com eles ao fim do mundo, mas… há condicionantes. O primeiro, é claro, da autonomia, mais ou menos a cada cem quilômetros (consoante os modelos), há que parar para recarregar a bateria. Depois vem a espera: várias horas (consoante os modelos) até que recuperam a plena carga. Tudo isso é acessível, autonomia e tempo de recarga são dois fatores que vão aumentar e diminuir com a evolução da tecnologia; por agora só cabe aproveitar vantagens e minimizar as desvantagens. Os elétricos são veículos competitivos na condução urbana, mas não, obviamente, nos longos percursos. Seu sucesso ou fracasso dependerá de decisões industriais (pesquisa e desenvolvimento) e, claro, do grau de aceitação de cada um dos potenciais clientes. Mas também –e é, talvez, a primeira convicção assumida no Desafio Verde – de vontades coletivas. Se não existe um mapa acessível de postos de recarga para veículos elétricos –tão fácil de fazer como uma guia de abastecimento de combustível ou de uma aplicação para dispositivos móveis – e se a simples operação de recarga se transforma em uma aventura de resultado incerto, pode ser por simples desinteresse dos poderes públicos e as grandes empresas relacionadas com o sector do transporte, ou porque uns e outros continuem interessados em colocar os paus, sobre as rodas do futuro.

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O futuro das emissões zero é possível. Virá antes ou depois. Um dos elementos que condicionará esse prazo será a nossa capacidade de pressão. A condução de um veículo elétrico é um prazer, mesmo uma contribuição parcial para a sustentabilidade do Planeta, mas às vezes parece que o preço é atravessar um campo minado.

Você está mais que convidado a participar do nosso desafio em a ou as etapas que melhor te virem ou você mais gosta, aqui as tem. Será um prazer recebê-lo! http://espanarumboalsur.com/desafio-verde/etapas/

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