O atletismo Mundial veste-se de Gala

100 anos de atletismo, 100 anos de glória

A Federação Internacional de Atletismo (IAAF) celebrou o seu primeiro centenário de existência em Barcelona, e até lá, nós temos chegado para compartilhar alguns momentos irrepetíveis com grande parte da história deste esporte, com os seus grandes campeões. A IAAF inaugurado com o motivo do seu Hall of Fame. O jamaicano Usain Bolt e a norte-americana Allyson Felix foram reconhecidos como os melhores atletas de 2012.

Por Vicente Capitão. Fotos: Fernando Lopes

Imaginaos que sois amantes do rock, e que alguém vos situa-se um fim-de-semana para se divertir com os Rolling Stones, Bruce Springsteen, os membros ex Beattles, Kiss, Metallica, Iron Maiden, BB King, Santana, o espírito de Hendrix… Ou que, sendo amantes do tênis, o evento que nos ocupa vos coloca a tiro compartilhar experiências com Rod”, Manolo Santana, Jimmy Conors, Lendl, McEnroe, Sampras, Navratilova e Chris Evert, Steffi Graf, Federer, Nadal… todos desfilando diante de vós, adeptos e jornalistas, todos disponíveis para contar histórias de sua época de ouro (os já aposentados), ou dos que lhes resta a fazer (os que ainda estão no activo). Pois algo assim é o que nos preparou a Federação Internacional de Atletismo (IAAF), com motivo de sua Gala Anual, em que serão entregues os prêmios aos melhores atletas do ano. Este passado ano de 2012, tudo era muito especial, porque em 1912, foi fundado o organismo máximo do atletismo universal e para comemorar tão distinta onomástica, os mais proeminentes membros do desporto-rei, o presente e o passado, esteve em Barcelona (Gala Anual é realizada a cada temporada em monte carlo, em sede de IAAF).

Tivemos a oportunidade de compartilhar alguns minutos, com a grande estrela atual do atletismo, o jamaicano Usain Bolt, que na foto brincava com seus amigos e os ali presentes. A simples presença de Bolt atrajó a dezenas de jornalistas de todo o mundo e muitos fãs.

Foi um presente de ano novo antecipado, um deleite para os sentidos, o poder de ouvir, ver, tocar, aqueles que estão nas páginas douradas da história do esporte, muitos retirados da competição antes de que nascesse, outros tantos e tantos com os quais crescemos naquelas primeiras transmissões televisivas atléticas em Portugal. E, além disso, os colossos da última década e os nossos dias, encabeçados pelo imponente Usain Bolt, que transcende a popularidade do esporte do xadrez e movilizaba um séquito de caça autógrafos e fotos, a cada passo que dava. De fato, em um ato de promoção de sua marca esportiva Puma, em uma rua da capital, a sua presença, antes que os acessos a este lugar.

E assim, por exemplo, nós estivemos sentados junto a dois ícones da história universal, não do atletismo, mas do esporte, como o saltador de comprimento Bob Beamon e seu compatriota e saltador de altura, Dick Fosbury. O primeiro, é raro quem não tenha ouvido falar dele, foi aquele senhor de cor que nos Jogos do México 68 voou, literalmente, até os 8,90, uma marca perpetuada até os Mundiais de Tóquio 91, quando outro norte-americano Mike Powell, ele superou por cinco centímetros, o atual recorde do mundo. A gesta de Beamon abriu novas tendências da pesquisa sobre o desempenho físico na altitude para o segundo que provas do programa olímpico. E o que dizer de Fosbury, também ouro olímpico no México D. F. e o homem que desafio aos juízes e técnicos ao encarar a fasquia do salto em altura nas costas, o que, desde então conhecido estilo Fosbury em sua honra, quando todo mundo pulou a rolo ventral (fazendo uma tesoura com o corpo para baixo, passando primeiro uma perna e depois a outra), ou outras variantes do clássico tesoura. Os dois foram adiantados para seu tempo. Junto a Fosbury foi o cubano Javier Sotomayor, o que continua sendo recordista universal da especialidade com 2,45, salto realizado em julho de 1993, em Salamanca, como todos os atuais ao estilo que marcou o senhor Fosbury, um à frente do seu tempo.

O norte-americano Dick Fosbury revolucionou o atletismo mundial nos Jogos do México 68, quando ganhou o ouro no salto em altura com um estilo revolucionário e único, pulando a fasquia de costas. O estilo se espalhou a partir de então até varrer do mapa os antigos saltos com rolo ou tesoura. A evolução do salto em altura teria sido inconcebível até nossos dias sem o estilo “Fosbury”.

Bob Beamon passou a ser uma lenda do esporte mundial, quando no México 68 voou até os 8,90 m no salto em comprimento. Como seu amigo Fosbury, Beamon foi adiantado para sua época.

Visita ao museu dos sonhos

Além disso, em nossa agenda lotada, pudemos assistir a uma fantástica exposição temporária no Museu Olímpico Juan Antonio Samaranch, a poucos metros do Estádio Olímpico de Montjuic. Lá estavam expostas muitas “jóias da coroa atlética” como as míticas sapatilhas com pregos variáveis (novidade na época) com que Jesse Owens foi coroado nos Jogos de Berlim-36, ao moderno body ajustado e os pregos com que o meio-ambiente queniana David Rudisha bateu o seu primeiro recorde do mundo de 800 metros, em 2010. Também uma justa homenagem ao atletismo português com as sapatilhas campeãs olímpicas de Fermín Cacho em Barcelona 92, a sua t-shirt de Atlanta 96, ou a roupa que Carmen lúcia Valero, quando foi Campeã do Mundo de Cross, em 1976 e 1977.

O tênis Joma com que Fermín Cacho é campeão olímpico, em 9 de agosto de 1992, em Montjuïc, ou a sua t-shirt de vice-campeão olímpico de quatro anos mais tarde, em Atlanta, eram algumas das “jóias” que reunia a exposição.

Tivemos a enorme fortuna de assistir a esta exposição, talvez irrepetível, acompanhados por muitos de seus protagonistas ativos, como o próprio Sotomayor (lá estava o sarrafo que franqueó em 2,45 seu recorde universal), seu compatriota Alberto Juantorena (gol de 400-800 nos Jogos de Montreal-76), a polonesa Irena Szewinska (com medalhas olímpicas em 100, 200, 400 e revezamento 4×400 do México 68 até Montreal 76), o americano Edwin Moses (duplo campeão olímpico dos 400 com barreiras -76 e 84-, o melhor de todos os tempos da especialidade, e o homem que nos “incomodava” dizer a ela que as crianças lhe vimos correr em Madrid, porque é lá que perdeu a sua invencibilidade, com 122 vitórias consecutivas, no Estádio de Vallehermoso, em junho de 1987). Outras lendas do meio fundo, como o queniano Kip Keino, precursor do domínio africano na pista, com o ouro nos 1.500 metros do México 68 e o mesmo metal, quatro anos mais tarde, mas em 3.000 obstáculos. E junto a ele, aparecendo em conferência de imprensa, o Neozelandês Peter Snell, que aos seus 74 anos (dois a mais que Keino) conserva-se como um dândi e tem a honra de ser o último homem em alcançar o título 800-1.500, obtido em Tóquio, 64, sendo que já em Roma 60 campeão olímpico nos 800 metros.

Uma imagem difícil de repetir, o tridente mágico do meio-britânico dos anos 80, Steve Ovett, Sebastian Coe, e Steve Cram. Desde que deixassem o atletismo ativo, poucas vezes se lhes tem visto os três juntos, de fato, nos custo convencer Ovett para tal fim.

E nos aproximando mais nossos dias, por lá andaram, também, que continua sendo recordista universal de salto em altura, Stefka Kostadinova (2,09 em 1987), a lenda da vara Sergey Bubka e sua homônima feminina, Yelena Isinbayeva; a irlandesa Sonia O’Sullivan, que fez o inédito título cross curto-cross comprimento nos Mundiais de 1998, em apenas 24 horas), e o que dizer, mais quando um é especialista em média e longa distância, do tridente britânico dourado do meio fundo: Sebastian Coe, Steve Cram e Steve Ovett. Para sempre manter essa imagem indelével de todos os três no Museu Olímpico, junto com parte de suas medalhas e roupas de seus dias de glória, algo muito, muito difícil de ver, já que Ovett é bastante esquivo aos meios de comunicação e pelas aparições em público. Os três, que, como quase todos os citados e muitos outros históricos convidados para a Gala, conservam-se com um aspecto físico magnífico, menos cabelo, cabelos brancos, no caso dos homens, algumas curvas na cintura, mas demonstrando o dito do provérbios: “o que teve de defender”. E por certo que os “british” charlaron amigavelmente, com os dois homens que têm acontecido a Coe na tabela de recordes para os 800 metros, o dinamarquês de origem queniano Wilson Kipketer e o campeão olímpico e mundial, o espumante David Rudisha. E posando junto a um exemplar do Sport Life tivemos a mulher com o recorde mundial mais antigo das listas atuais, Jarmila Kratochvilova, a tcheca que com 1:53.28 em 800, cumprirá 30 anos como recordista neste ano de 2013.

A checa Jarmila Kratochvilova cumprirá 30 anos como recordista universal de 800 metros neste ano de 2013, se ninguém o impede. Aos 32 anos, correu a distância em julho de 1983 em 1:53.28, uma marca estratosférica para então e agora. Não podemos negar que os registros de Jarmila sempre estiveram sob suspeita, embora nunca tenha estado envolvida em casos de doping.

Hall of Fame

Entre tanta emoção, na noite de sábado, realizou-se a distinta Gala da IAAF, com terno smoking para eles e vestidos longos de festa para elas, ato presidido pelo Príncipe Alberto do Mónaco, presidente de honra da Federação Internacional. Ali a noite com seus prêmios como melhores do ano de dois especialistas em velocidade, o jamaicano Usain Bolt e a norte-americana Allyson Felix. E junto a eles subiram ao palco os membros que este ano acederam ao Hall of Fame de novo cunho, do atletismo mundial. Para se qualificar Para entrar no tão precioso “lugar” tem de ter pelo menos um ouro olímpico, outro em um campeonato do Mundo e um recorde universal. Em Barcelona, foram Iolanda Balas (Roménia, altura), Sergey Bubka (Ucrânia, vara), Betty Cuthbert (Austrália, velocidade), Alberto Juantorena (Cuba, 400 e 800), Sebastian Coe (Grã-Bretanha, meio fundo), Wang Junxia (China, fundo), Kipchoge Keino (Quênia, meio e obstáculos), Stefka Kostadinova (Bulgária, altura), Edwin Moses (EUA, 400 com barreiras), Dan O’Brien (EUA, decathlon), Peter Snell (Nova Zelândia, meio fundo) , Jackie Joyner (EUA, hepetatlón) e Irena Szewinska (Polónia, velocidade). Oito dos nomes deste Hall of Fame já falecido e por eles subiram ao palco alguns familiares. Não compareceram o marchador russo Golubnichy, Carl Lewis, Michael Johnson. Os dois últimos se jogou de menos pela sua popularidade, o mesmo que os grandes fondistas das últimas décadas, os etíope Haile Gebrselassie e Kenenisa Bekele, ou o queniano Paul Tergat, que não se deixaram cair fora da Cidade Condal. A idéia da IAAF é que, no Hall of Fame ingressam a cada ano, quatro novas pessoas.

Wilson Kipketer e David Rudisha, os dois últimos imperadores de 800 metros, foram também muito procurados pelos participantes. De momento não estão no Hall of Fame, mas serão candidatos no futuro. / Foto: IAAF-Ritter.

Todos os membros do Hall of Fame, que participaram de Barcelona, junto ao presidente da IAAF e os melhores atletas do ano. Da esquerda para a direita: O presidente Diack, Bolt (tampado), Felix, Szewinska, Snell, O’Brien, Moses, Kostadinova, Keino, Junxia, Juantorena, Cuthbert, Coe, Bubka e Iolanda Balas. / Foto: IAAF-Colombo.

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