O esporte não serve para nada…

Onze

“O esporte não serve para nada se não serve para coisa alguma”. Esta frase eu ouvi pela primeira vez há quase um ano. Disse Ana Muñoz, Diretora-Geral do Conselho Superior de Esportes em um Think Tank sobre o esporte e resiliência no que se entregou a Rafael Nadal, o prêmio de Resiliente do ano.

A frase parece uma obviedade, mas nada mais longe da realidade. O esporte é uma ferramenta para alcançar determinados objetivos físicos, sociais ou educacionais e enquanto essa ferramenta cumpra com o seu dever, terá a sua relevância e o seu sentido. No momento em que deixa de fazê-lo é quando temos que repensar se vale a nossa atenção, o nosso investimento, o nosso apoio por parte das instituições públicas e nessa posição de privilégio que lhe damos, simplesmente porque é esporte.

Vou contar dois exemplos em que isso se demonstra. Há um par de semanas, terminou uma campanha que iniciou Technogym em mais de 350 academias em 17 países. Chamou-Se “Lets Move for a Better World” (Movámonos por um mundo melhor). Esta iniciativa consistiu em propor um desafio para os ginásios em que eles têm instalados os equipamentos de fitness para que apenas entre si. O desafio era somar o maior número de MOVES (unidade de medida da atividade física em cada máquina de Technogym) possível em 20 dias. Havia um ranking que é atualizado online em que todos os participantes estavam cientes de sua contribuição e uso da competição. O prêmio era a doação de um conjunto completo de equipamentos para uma organização sem fins lucrativos que escolhesse o ginásio vencedor.

Um dos ginásios que entrou nesta competição é centro de Fitness Físico. Este ginásio é o levou realmente a sério. Fez uma apresentação oficial aos sócios, convidou o presidente da câmara de Lisboa e escolheu-o como beneficiário o Hospital Porta de Ferro que está em seu município. Toda uma declaração de intenções e uma amostra de compromisso. Assegurou-Se de entrar em contato com cada parceiro, para que fosse consciente de que, nesses dias, o seu esforço somava-se para uma causa maior. Que era imprescindível a soma de todos. Os parceiros com maior exposição prestaram a sua imagem e se envolveram para incentivar a participação. As redes sociais tomaram fumaça, muita gente se fez de t-shirts amarelas que pareciam que estavam competindo por algo mais. Até o último sábado da competição, o ginásio abriu a noite toda, incorporando um DJ para que amenizara o último esforço e, assim, animara a todo o mundo a seguir somando MOVES.

A participação é baleado. Mas não creiais que aqueles que mais contribuíram foram os “animais de ginásio”. As contribuições relevantes foram essas pessoas que vão ao ginásio por prescrição médica, pessoas mais velhas que fazem ginástica de manutenção, grupos de trabalho, aulas de grupo…TODOS se concienciaron e todos se envolveram, cada um de acordo com suas possibilidades. A verdade é que o Fitness Físico ganhou essa competição e, hoje em dia, o Hospital Puerta de Hierro tem o prazer de ter um novo centro de fitness, para ajudar a curar mais pacientes enquanto Technogym cumpriu um dos sonhos de Nerio Alessandri (seu fundador): ajudar as pessoas a viver melhor. Neste caso, também se cumpriram os objectivos , tanto para os parceiros de Físico como para os pacientes do hospital.

O outro exemplo do que vos vou falar hoje é da Reebok. Em 2012, a Marca através de um de seus ginásios e a agência DRAFTFCB inventaram uma ação muito legal. Vincularam o objetivo de perder peso com a falta de alimento em certos lugares do mundo mais infelizes. Para isso inventaram a “Não Hunger Machine” (“A máquina anti-fome”), não era mais do que uma passadeira que mede as calorias gastas por qualquer um que entrar nela. A ação consistia em transformar essas calorias dos alimentos que estavam a fazer chegar ao aqueles lugares que eles precisavam. Por cada 40 calorias queimadas, Reebok doava 1€ destinado a alimentos que a Ação contra A Fome distribuiría adequadamente.

Colocaram as máquinas de correr por todos os lugares, parques, ruas, áreas de escritórios, áreas comerciais, etc… e as conectaram com um microsite para que se viram os progressos, para que as pessoas pudessem compartilhar suas conquistas nas redes sociais, e envolver qualquer um que gostaria de contribuir com seu esforço para a causa. É claro que uma ação como esta teve o seu impacto, mas acima de tudo mobilizou as pessoas, aumento da conscientização de uma causa e colocou o esporte à disposição dos outros.

Ambos os casos são um claro exemplo de como o esporte realmente serve para alguma coisa. Ambos os exemplos são a materialização das palavras de Ana Monteiro. Claro que este tipo de iniciativas geram um impacto e aumenta a marcas, mas há alinhando os objetivos de negócio com outros que os transcendem e que lhe dão um porquê para a nossa actividade e ao esporte.

Em muitos casos, é possível visualizar uma tendência a levar o esporte para o lado do puro negócio, do puro espetáculo ou exclusivamente ao domínio da estética. E a verdade é que me parece bem, enquanto cumpra com seus objetivos principais. Se não é assim… o esporte não está servindo para nada de útil a longo prazo, e seus gestores terão escolhido competir contra outros negócios, outros centros estéticos ou outras alternativas de entretenimento, mas não merece o nosso apoio, para além do interesse pontual. Mas o pior da história é que o esporte será esquecido porque tem relevância que damos e correrá o risco de ser apenas algo mais. Eu amo o que continuemos vendo exemplos que entendem a essência do assunto. Porque “o esporte não serve para nada se não serve para coisa alguma”.

Siga-me no Twitter

Deixo-vos um vídeo em que vereis o funcionamento da “Não Hunger Machine”

Leave a Reply